Autoabandono e limites

Como voltar a saber o que você quer

Depois de anos decidindo pelos outros, muita mulher trava diante de uma pergunta simples: o que você quer? Não é falta de personalidade, é falta de uso. Querer também é prática, e volta com exercício. Aqui: cinco perguntas de partida, fáceis o suficiente para funcionar mesmo quando nada vem à cabeça.

Mulher sentada junto à janela com um caderno, pensando

Por que a resposta some

Porque querer exige espaço, e quem passa o dia atendendo à necessidade dos outros não tem onde exercitar isso. A pergunta "o que você quer" simplesmente deixa de ser feita, inclusive por você.

Existe também o custo: em alguns ambientes, dizer o que se quer gerou briga ou decepção. Aí a resposta passa a ser "tanto faz", que é mais barata.

Isso é uma das faces do autoabandono: não é que você não queira nada, é que faz tempo que a pergunta não é feita.

As cinco perguntas de partida

São fáceis de propósito. A pergunta grande sobre propósito de vida trava; estas costumam ter resposta.

  1. O que eu faria hoje se ninguém precisasse de mim por duas horas? Duas horas é curto o bastante para a resposta ser honesta.
  2. O que me deu vontade de sorrir nesta semana? Vale coisa mínima: uma música, uma cena na rua.
  3. O que eu evito e não precisaria evitar? A resposta costuma revelar um limite que está faltando.
  4. O que eu gostava aos quinze anos? Nem sempre serve hoje, e quase sempre indica a direção.
  5. O que eu sinto inveja de ver alguém fazendo? Inveja é uma bússola desconfortável e precisa.

Como praticar querer em coisa pequena

  • Escolha o filme. Quando perguntarem, responda de verdade em vez de devolver a pergunta.
  • Peça o que você quer comer. Não o que sobra, não o que agrada a todo mundo.
  • Diga uma preferência por dia. Em voz alta, mesmo que ninguém acate.
  • Aceite discordância. Querer não obriga ninguém a concordar, e esse é justamente o treino.

Coisa pequena é onde o músculo volta. Depois de duas semanas, a resposta para perguntas maiores começa a aparecer sozinha.

O que atrapalha saber o que você quer

  • Achar que precisa ser grande. "Quero uma hora de silêncio" é resposta legítima.
  • Justificar a vontade. Querer não precisa de mérito nem de explicação.
  • Cancelar antes de dizer. Muita vontade morre na frase "mas isso é bobagem".
  • Esperar certeza. Dá para escolher sem ter certeza, e ela costuma vir depois do movimento.

Nenhuma dessas armadilhas é sinal de falha. São hábitos formados em anos, e desmontá-los leva semanas de prática pequena, não um dia de decisão.

Quando não é só falta de prática

Se junto com a ausência de vontade aparecerem desânimo profundo, perda de interesse por tudo o que antes era bom, alteração de sono e apetite ou sensação de vazio por semanas, isso pede avaliação de profissional habilitado. Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento.

Perguntas frequentes

E se nenhuma pergunta tiver resposta?

Comece pelo corpo: o que dá vontade de fazer neste minuto, mesmo que seja deitar. Vontade pequena é o começo do caminho, e não uma resposta menor.

Isso é egoísmo?

Não. Saber o que se quer é o que permite escolher, inclusive escolher cuidar de alguém. Quem nunca sabe o que quer acaba escolhendo por eliminação e depois se ressente.

Quanto tempo leva para voltar?

Não existe prazo. O que costuma acontecer é a resposta aparecer primeiro em coisas pequenas e depois em decisões maiores, e não o contrário.

E se o que eu quiser atrapalhar minha família?

Querer não é executar sem conversa. O primeiro passo é saber, o segundo é negociar, e pular o primeiro é o que costuma gerar anos de ressentimento.

Continuar lendo

Veja todos os artigos publicados ou use as ferramentas de auto-observação.